Para começar a contar a história de São Victor, temos que recuar ao tempo da dominação romana, particularmente às estradas que partiam de Bracara Augusta para o mundo. Eram duas as vias que rasgavam o seu território, a Via XVII, que seguia o traçado hoje constituído pelas ruas de S. Victor, D. Pedro V e Nova de Santa Cruz e se dirigia para Chaves, e a Via XVIII, também conhecida como Via Nova, que contornava o atual cemitério de Monte d’Arcos e seguia em direção ao Gerês. Foi à margem destas vias que surgiram lugares de culto cristãos, nomeadamente aquele onde foi venerado desde o início do século IV o jovem catecúmeno Victor, martirizado heroicamente em nome da sua fé. As notícias mais antigas a respeito deste templo datam do distante ano de 565 e escavações recentes confirmam que o local estava habitado nos séculos IX e X. Muito perto existiria um outro templo dedicado a Santa Susana, mártir coeva de S. Victor (seria sua irmã).

São Victor foi até ao século XVI um lugar considerado externo à cidade de Braga, dado encontrar-se fora dos muros da cidadela medieval. As alterações urbanísticas empreendidas por D. Diogo de Sousa ajudaram certamente a aproximar a cidade, contudo haveria de ser um outro arcebispo a deixar a sua marca na freguesia. Foi D. Luís de Sousa quem no ano de 1686 patrocinou a reedificação do ancestral local de culto, que terá sido sagrado por D. Paio Mendes em 1120. Transformado num dos mais elegantes templos barrocos da cidade, detém um dos mais importantes conjuntos da azulejaria nacional, saídos da criatividade de Gabriel del Barco, que se inspirou nas histórias recolhidas por D. Rodrigo da Cunha na sua “História Eclesiástica dos Arcebispos de Braga”. Foi à sombra da igreja de S. Victor, vértice das duas artérias fulcrais da freguesia – a rua do Assento (S. Domingos) e a rua da Régua (S. Victor) – que surgiu uma das atividades económicas mais significativas da história de Braga: a chapelaria.

Inicialmente com uma produção concentrada em pequenas oficinas familiares, haveria de ser o fundamento para a origem de unidades de grande produção de chapéus. Foi no território de São Victor que se deu o surgimento de grandes indústrias de chapelaria ao longo do século XIX. Salientamos as três maiores fábricas ‘a vapor’ que conseguiram singrar no tecido económico da cidade: “Taxa”, fundada em 1851; “Social Bracarense” cuja atividade se iniciou em 1866; e finalmente “A Industrial”, fundada em 1921. Na mesma área nasce, em 1894, a Saboaria e Perfumaria Confiança. Até à desanexação do território da freguesia de S. José de S. Lázaro em 1747, S. Victor ocupava praticamente todo o quadrante sul e oriental do território extramuros de Braga. Segundo dados de meados do século XVIII, possuiria uma população a rondar os três milhares, subdivididos por artérias periurbanas e zonas eminentemente urbanas, como é o caso do campo de Nossa Senhora a Branca e parte do Campo de Santana, mas também de múltiplos lugares de cariz rural. Segundo o “Dicionário Geográfico” de 1747- -51, a freguesia possuía as aldeias de Passos, de Vilar, Santa Tecla, Torneiros, Soutinha e Areal. Curiosamente algumas destas áreas só haveriam de tornar-se urbanas já na segunda metade do século XX.

Foi próximo de um destes povoados, o lugar de Passos, que Braga, pelo menos desde o período romano, encontrou os mananciais suficientes para dar de beber aos bracarenses. O complexo das Sete Fontes, ao qual D. José de Bragança deu forma no século XVIII, é um dos principais legados que o território vitoriano concedeu à cidade de Braga e pode ser no futuro um dos seus espaços emblemáticos. A abertura da rua de Santa Margarida em 1867, da rua Bernardo Sequeira em 1886, e da avenida 31 de Janeiro em 1912, sublinhando o antigo caminho das Gabieiras, acabaram por rasgar a freguesia e lançar as bases do urbanismo posterior. São Victor cresceu, apesar de em 1933 ter cedido mais uma parte do seu território para a recém-criada freguesia de S. Vicente. O plano de urbanização lançado no consulado de Santos da Cunha na edilidade haveria de dar o primeiro impulso de crescimento, absolutamente confirmado no último quartel do século passado com a instalação da Universidade do Minho na sua extremidade oriental. Depois da instalação do cemitério em 1870, seguiu-se o Tribunal em 1995. Até o Arcebispo passou a ser residente permanente na freguesia a partir de 1921. A instalação do hospital em 2011 foi a confirmação definitiva da superior relevância desta freguesia no contexto urbano de Braga. A partir de agora todos os bracarenses passam a nascer como naturais de São Victor, a freguesia que não deixa esmorecer o seu protagonismo.